Até onde a Amazônia pode resistir?
Pesquisas mostram que a ação do homem pode degradar até 95% da floresta em vinte anos e como fenômenos climáticos complicam esse quadro
| Crédito: Janduari SimõesNepstad e seu experimento na Floresta do Tapajós: simulação de uma seca para estudar a reação da Amazônia na hipótese de ocorrer um mega El Niño |
Do Descobrimento até o final da década de 70, apenas 4% de toda a Amazônia havia sido devastada. Isso corresponde a arrancar menos que um gomo de uma laranja. Nos últimos vinte anos, já se foram mais dois gomos. Hoje, a área desmatada da floresta equivale à de um país como a França. Essa ainda seria uma situação confortável se o futuro não prometesse coisa muito pior. Caso nada seja feito para estancar a destruição, daqui a apenas vinte anos poderão restar somente 28% de mata virgem na Amazônia, na hipótese mais benigna, ou ainda menos - 4,7% -, a se confirmarem as hipóteses mais pessimistas levantadas pelo grupo de cientistas liderado pelo biólogo americano William Laurance, pesquisador do Smithsonian Tropical Research Institute, um dos centros de pesquisa da prestigiosa Smithsonian Institution dos Estados Unidos, e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus.
Laurance, de 43 anos, criou um modelo de previsão matemática do desmatamento com base nas obras construídas na Amazônia. Ele é autor de mais de cinqüenta artigos e de dois livros sobre a região e vive em Manaus há cinco anos. Metido em bermudas largas, camisas pólo e sandálias, é capaz de passar horas sobre um pequeno computador portátil redigindo seus textos e fazendo cálculos. Com sua fórmula, o cientista projetou quanto pode ser destruído em volta de cada nova obra planejada no programa Avança Brasil, que começou a ser implementado pelo governo em janeiro deste ano. O que ele analisa, no fundo, é a medida da ocupação humana na maior reserva florestal contínua do planeta, uma região que abriga quinze vezes mais espécies de peixes que todos os rios europeus, guarda 20% da água potável do mundo e tem a maior linhagem de aves, primatas, roedores, jacarés, sapos, insetos e lagartos da Terra.
No meio dessa biodiversidade, o governo planeja pavimentar ou construir 8.000 quilômetros de estradas. Até 2007, devem estar operando mais de uma dezena de portos e quatro aeroportos novos ou ampliados, dois gasodutos, três usinas termelétricas, toda a segunda etapa da hidrelétrica de Tucuruí, mais a de Belo Monte, no Rio Xingu, e as hidrovias Araguaia-Tocantins (2.250 quilômetros) e do Madeira (1 056 quilômetros), além de milhares de quilômetros de linhas de transmissão de energia e de um novo trecho de 1.400 quilômetros da Ferrovia Norte-Sul. Em oito anos, a região terá recebido quase 40 bilhões de reais em investimentos.
No passado, a implantação de projetos dessa magnitude criou situações que podem ser medidas com precisão - e é dessas medições que parte a projeção sombria de Laurance. Alguns dos piores resultados da ocupação podem ser vistos às margens de rodovias como a Belém-Brasília, aberta nos anos 60, e a PA-150, o corredor da madeira no leste do Pará. Um estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) mediu a devastação provocada por essas duas rodovias, mais a da BR-364, que liga Cuiabá a Porto Velho, todas construídas nas últimas três décadas. Ao longo da Belém-Brasília, 55% da vegetação foi derrubada numa faixa de 50 quilômetros de cada lado da estrada. Às margens da PA-150, o índice ficou em 40% e, para a Cuiabá-Porto Velho, em 33%. O trabalho do Ipam concluiu ainda que dois terços do desmatamento total da Amazônia ocorreram nas vizinhanças de rodovias.
Nas projeções do biólogo William Laurance, às margens de uma estrada como a Cuiabá-Santarém, aberta nos anos 70 e cuja pavimentação está prevista no Avança Brasil, o desmatamento pode espalhar-se por até 200 quilômetros lateralmente ao asfalto. No caso das hidrelétricas, o avanço sobre a mata alcança uma extensão de até 25 quilômetros a partir das bordas dos reservatórios. Considerando o potencial de devastação de cada obra, a equipe projetou os totais desmatados. Para montar o cenário otimista, definiu-se a possibilidade de preservação de todas as reservas já existentes na Amazônia, florestais e indígenas. Na hipótese pessimista, calcula-se que os limites não serão respeitados em reservas à margem das estradas, por exemplo. O estudo conclui que as obras do Avança Brasil poderão incrementar em até um quarto os 20.000 quilômetros quadrados devastados todos os anos na floresta, totalizando uma superfície maior do que a do Estado de Sergipe podada a cada ano.
"É como permitir que se corte ao meio um bolo que antes era comido pelas bordas", diz Laurance, ao tratar da ação humana sobre a floresta. Ele se refere sobretudo à atividade das madeireiras, as pioneiras no avanço sobre a mata. O fenômeno da penetração seguindo a estrada como uma faca que vai separando nacos da região já pode ser observado no oeste do Pará, no entorno da BR-163, que liga a capital de Mato Grosso a Santarém. O esgotamento de antigos pólos madeireiros em outras regiões faz com que serrarias migrem dessas áreas para as margens da rodovia. Embora a estrada tenha sido aberta na década de 70 e permaneça sem pavimentação num trecho de mais de 1.000 quilômetros, quase impossível de transpor na época das chuvas, as madeireiras avançam em direção ao "meio do bolo". Ali existe um corredor de escoamento - precário, mas há -, e por ele milhares de metros cúbicos de espécies de alto valor comercial, como o ipê e o cedro, seguem para o sul ou sobem para o Porto de Santarém, para exportação. "A Cuiabá-Santarém é a verdadeira estrada da integração nacional", diz Edgar Antônio Brandt, presidente do Sindicato dos Madeireiros do Sudoeste do Pará, em Novo Progresso.
Esse município e a localidade de Moraes de Almeida, 100 quilômetros ao norte, concentram o mais novo pólo madeireiro da Amazônia. No final de 1997, não havia nem quinze serrarias instaladas por lá. Até o fim deste ano serão mais de 100. Em toda a rodovia, 150. Elas comem pelo menos 75.000 hectares de floresta por ano. Cerca de 1,5 milhão de metros cúbicos de madeira - com a qual se pode lotar mais de uma centena de navios - são retirados anualmente de lugares onde três anos atrás não se cortava uma única tora. Em 1995, Novo Progresso contava com 6.000 habitantes. Hoje tem 24.000. A vizinha Moraes de Almeida viveu o auge da produção de ouro, na década de 80, com 2.000 habitantes, escolas, hospitais, posto policial e até agência bancária. Quando o metal acabou, dez anos atrás, chegou a ter só 26 moradores. Agora, retomou o tamanho original. Como associa a chegada das madeireiras com progresso, a população das duas cidades se une aos destruidores da mata para reivindicar o asfaltamento da Cuiabá-Santarém. "Seria a realização de um sonho", afirma o prefeito de Novo Progresso, Juscelino Alves Rodrigues, do PSDB. O sindicato dos madeireiros calcula que, com o asfalto, o custo do frete da madeira, de 140 reais por metro cúbico, cairia quase à metade, tornando a região mais competitiva para esse tipo de comércio.
A ação destrutiva começa com a retirada da madeira. Em seguida, os madeireiros partem para uma área nova, e a terra arrasada que deixam para trás se transforma em local de plantação ou pastagem para gado. Pelas experiências do passado, sabe-se que o ciclo de aproveitamento da mata por esse modelo dura de vinte a 25 anos, gerando prosperidade e crescimento. Depois, vem a decadência. Ambientalistas acreditam que o asfalto é um meio de acelerar esse processo e que o governo deveria estudar mais o impacto de um programa como o Avança Brasil antes de iniciá-lo. Em Brasília, o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, afirma que os projetos previstos para a Amazônia podem ser revistos, se ficar demonstrado que prejudicarão a floresta. Diz Sarney Filho que o BNDES tem 800.000 reais para a elaboração de um relatório de impacto ambiental sobre esses planos. "Dependendo do resultado, o Avança Brasil pode até ser modificado", garante o ministro. Os brasileiros devem ouvir declarações como essa com muita desconfiança. Governo após governo, Brasília sempre optou por projetos desmiolados para a Amazônia. Nunca, até hoje, o bom senso prevaleceFonte: Veja, Christian Schwartz, de Novo Progresso
Cadastrada em: 2008/8/23
Pelo colaborador:
Alisson Figueiredo Rosa
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