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Nascido em 1953, em Ilhéus na Bahia, o artista baiano Isaac de Oliveira pinta desde os 12 anos de idade. Está há 30 anos em Campo Grande. Ao conhecer o Estado de Mato Grosso do Sul, Isaac mudou completamente seu jeito de pintar e direcionou a sua arte para as cores fortes da região. Ele participa de vários movimentos da arte regional e o seu trabalho transpõe as fronteiras nacionais, tendo diversas obras divulgadas no exterior.
Portal MS: Como foi sua vinda para o Mato Grosso do Sul?
Eu nasci na Bahia, depois eu fui estudar em São Paulo, onde fiz o curso técnico na escola Campinas de Belas Artes. Naquela época não tinha faculdade normal, igual se encontra hoje, eram só cursos técnicos e foi o que eu fiz. Morei 17 anos lá e depois que eu vim para o Mato Grosso do Sul e daqui não saí mais, já faz 30 anos.
Portal MS: Tem alguém na sua família que é artista?
Na minha família não tem ninguém não. Eu comecei a mexer com arte porque eu gostava mesmo. Adoro desenhar, mexer com isto. Hoje é minha filha que mexe também com arte. Ela faz a estampa nas camisetas da rede Wal Mart.
A minha primeira exposição foi com 12 anos. Foram temas infantis, parecia uma exposição baseada nas figuras de Marco Pólo.
Portal MS: Você atua também na área da publicidade?
A BW3 Propaganda é minha. Eu entrei na publicidade porque eu desenhava. Eu não fiz faculdade de publicidade. Antigamente, o publicitário até se chamava ilustrador, tinha que ter o jeito com o desenho, se não o trabalho não saía. Quando não se tinha computador para auxiliar tinha que fazer tudo à mão. Se a propaganda tinha crianças no parque, era tudo desenhado. Eu comecei a desenvolver muito também a fotografia.
Portal MS: Seu trabalho de pintura é conhecido pelas cores fortes, o que te inspira?
Eu não tenho medo da cor. Eu não consigo ver o mundo sem elas. Vivo procurando por cores novas, tons diferentes.
A inspiração vem pelo que eu quero fazer. Se quero fazer flores, eu vou pesquiso, vejo o que eu tenho de fotos de flores e rabisco em vários quadros, a partir daí eu já sei como vai ficar, então é só o trabalho mesmo de pintar. A síntese da minha criação está no desenho.
Portal MS: Qual é a reação do público ao ver suas obras?
O que me encanta, quando eu exponho em lugares onde as pessoas não me conhecem, é as ouvir comentando sobre minha obra, sobre aspectos dela, que quem me conhece, já sabe que é meu estilo.
Portal MS: Você já expôs seu trabalho fora do país, como as pessoas do exterior recebem suas pinturas?
Eles olham a minha pintura como tropical, como algo vindo da América do Sul. Vou dar o exemplo de Londres, uma cidade com o tempo nublado, sem sol, sem muitos tons de cor e olha o Mato Grosso do Sul, com sol, luminosidade que deixa você enxergar a cor de verdade de uma flor, de um objeto. O azul do céu daqui é maravilhoso. Eu escuto muito as pessoas falarem que minha obra faria sucesso no Japão, porque lá há uma carência de cores.
Portal MS: O que você acha da exposição permanente que o Marco realiza?
Eu fui uns do que levantou a bandeira para que fosse permanente. É interessante que se tenha um lugar fixo onde se possa ir e comprar a arte por um preço mais barato.
Infelizmente eu estou sem obras que eu possa expor para compra, preciso fazer algo que se encaixe para a venda em um bazar.
Portal MS: Como você vê a arte no Mato Grosso do Sul?
Vou te contar como a arte criou amplitude aqui. As pessoas tinham fazendas, mas moravam na cidade em casas enormes. No entanto, passavam mais tempo na fazenda do que na casa da cidade. Por isto elas começaram a melhorar sua casa na fazenda. Essa evolução da moradia trouxe a decoração, que chega aos quadros.
Hoje as pessoas pagam uma fortuna pela casa, tem uma decoração maravilhosa, mas pendura na parede um quadro qualquer, tem é que comprar um quadro com nome e qualidade. Não só isto, os móveis também têm que ser de qualidade, não adianta nada deixar de comprar nas Casas Bahia, para comprar em outro lugar mais caro, com nome, mas que produz seus móveis industrialmente. Tem que ter o design próprio, móveis únicos.
Portal MS: Como você fez para conquistar seu espaço?
Eu não conquistei meu espaço, nem existe mercado ainda. As pessoas só compram obras para efeito decorativo, não é no sentido cultural. Faz 30 anos que moro aqui, eu sempre pintei, não aconteceu comigo, por exemplo, de meu trabalho ser comprado por um colecionador. Acho que a arte tem que ser decorativa, cultural e um investimento, assim deve ser o mercado. E eu acho que minha obra se encaixa nos três. Minha arte é gostosa de ver, se insere na cultura e é um investimento para mim. Diria que, hoje, ela valorizou três vezes mais.
Portal MS: Mato Grosso do Sul tem muito que crescer ainda?
Aqui tem muitos museus, espaços para expor, muitos artistas bons, o que falta é mudar o mecanismo de compra. As pessoas ainda não sabem que tem que comprar obras de arte. Meu sonho é que as pessoas comprem minha obra como se fosse uma geladeira, por necessidade. Que queiram ir para casa, porque tem que observar minha pintura pendurada.
Eu fiz uma exposição de mulheres nuas no Shopping Campo Grande. Usei modelos reais e ficou muito parecida de fato com as pessoas. Foi algo muito polêmico, muitas pessoas não entravam para ver as pinturas, outras afastavam os filhos de lá e tinha quem reconhecesse as pessoas pintadas. Foi a primeira exposição de nus aqui em Campo Grande. Então, daí você já percebe o quanto tem para crescer ainda.
Portal MS: Quais são seus projetos futuros?
Eu tinha um projeto de fazer quatro exposições no ano, mas não andava pintando muito, por isto acabava não fazendo. Um artista que quer visibilidade tem que fazer uma exposição internacional e duas nacionais no mínimo, fora as pequenas exposições.
Faço normalmente exposições sozinho, porque meus quadros são muito grandes, ocupam paredes inteiras.
Tenho um projeto particular, no qual eu vou às escolas, com crianças pequenas e falo um pouco de arte, mostro quadros. Eles entendem mais que adultos, conseguem explicar o porquê fiz os detalhes e usei tais cores.
E eu também estou querendo montar uma galeria em São Paulo ou Curitiba, mas para isto preciso de um acervo. Como dizem o "acervo da viúva", porque quando o artista morre deixa as obras para a esposa.
Entrevistado por Letícia Reynaldes Dias.