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Américo Calheiros é o atual Presidente da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul e além disto, já foi produtor de teatro. Passa parte do seu tempo livre escrevendo, paixão assumida por ele.
Hoje, Américo ajuda a promover outros artistas. E em entrevista ao Portal MS nos contou como se encontra a cultura no Estado e um pouco de sua opinião sobre assuntos culturais.
Portal MS: Como que a Fundação busca promover os artistas do Estado?
Uma das preocupações nossa aqui na Fundação de Cultura do Mato Grosso do Sul é fazer a integração no estado também no aspecto da cultura, porque MS não é apenas Campo Grande no âmbito cultural. Campo Grande já é uma cidade que está com programa forte na área da cultura e da arte, está no circuito nacional, a gente recebe hoje os grandes shows de música, grandes peças de teatro, tudo passa aqui de uma forma ou de outra. Todos os artistas que entram nos editais nacionais, sejam nacionais ou sejam do Ministério da Cultura, quando são contemplados, a primeira cidade que eles incluem para o roteiro de apresentação é Campo Grande, até pelo fato de ser uma capital.
Mas a gente precisa também lembrar que nós temos ao lado deste eixo, chamado Campo Grande, mais 77 municípios que possam mostrar sua potencialidade, porque cada um tem sua a particularidade cultural. E quem ainda não conseguiu vislumbrar isto está preocupado com esta questão. A gente percebe que o Estado cresceu neste aspecto e que a cultura entrou na agenda política e administrativa, mas é claro que alguns municípios com mais força, outros ainda nem tanto, mas vislumbramos um futuro bem melhor, na qual a circulação do bem cultural, das informações relacionadas com a cultura e o quadro cultural como um todo esteja presente na vida de todos os indivíduos sul matogrossenses.
Portal MS: E como que a Fundação apóia estes artistas?
Nós estamos procurando dar os primeiros passos nesta direção em relação a isto que eu disse, em fazer esta integração cultural do Estado. Na área do teatro, nós estamos com este projeto chamado “Circuito Sul Matogrossense de Teatro”. É o primeiro ano que está acontecendo, são 50 espetáculos que estão sendo apresentados em 20 municípios do estado do MS. A experiência tem sido muito frutífera, até para nós da fundação que temos recebido uma adesão incrível dos municípios. Em muitos lugares nós temos uma platéia super expressiva, uma demonstração de que quando você tem uma opção na área artística e cultural que é de fácil acesso, a população comparece, prestigia e o pessoal está encantadíssimo com a receptividade.
Na área das artes plásticas, o ano passado fizemos um mapeamento de grande parte dos artistas plásticos que compõe este cenário e este ano, com o exemplo do projeto Espelho das Artes, nós estamos divulgando, fazendo exposições em vários municípios do Estado. Estamos também criando o espaço para que se mostrem os trabalhos de artes plásticas e que pode receber o público apreciador, porque a arte não sobrevive por si só, ela sobrevive por si só, ela precisa ser vista, apreciada, aplaudida, criticada e estimulada.
Na área de dança, nós estamos fazendo cursos em 15 municípios no projeto “Conecção Dança de Rua” e também o projeto “Dança do Mato” que acontece no segundo semestre e que vai levar a cinco municípios do estado um grupo com linguagem diferente na área da dança.
Na música, nós tivemos, ano passado, o “Viva MS” que era uma homenagem aos 30 anos do MS. Foi excelente, com a participação de vários municípios, tinha lugares que nós tivemos 12 mil pessoas e a média foi três mil. Então começa a se revirar este caldeirão cultural, com suas distintas manifestação, com suas peculiaridades.
Portal MS: Quando se tem um projeto o artista que busca o apoio ou é a Fundação que vai atrás, como funciona?
Na realidade a gente tem vários caminhos. O principal caminho quando a comunidade tem uma proposta é o FIC (Fundos de Investimentos Culturais). Este ano FIC disponibilizou um milhão de reais para os projetos a comunidade. Porque a gente não tem condições de que durante o ano inteiro se apóie projetos, digamos assim, picados. Tem que ter um planejamento, e este planejamento a gente faz dentro da programação dos projetos que são desenvolvidos pela Fundação com editais e convites, que são abertos a todos. E também pelo FIC, que apóia sua proposta e que depois de aprovada pelo Conselho Estadual de Cultura, que começa a ser viabilizado.
Este ano nós temos 37 projetos aprovados, que já estão começando a acontecer. Nós procuramos acolher com mais propriedade os projetos que facilitam o acesso da população à arte e cultura. Então o principal tópico que colocamos no edital é a chamada acessibilidade. Não é para se fazer uma iniciativa que vai beneficiar apenas umas 10 pessoas. Então nós consideramos principalmente a linha básica de percepção deste projeto a facilitação ao acesso, ao consumo desta cultura.
Portal MS: Então quando um artista busca uma parceria com a Fundação, vocês entram com o recurso do FIC, que ajuda na realização do projeto. É assim que é a parceria?
Bem, na verdade os recursos do FIC são para atender as propostas da comunidade, que é quem, o artista, o produtor, os pesquisadores, as pessoas que estão no meio e que exercem uma ação dentro da cultura. Então estes recursos são repassados para a pessoa e há um acompanhamento do Conselho Estadual de Cultura. Este é o caminho direto, além disto, vamos estabelecendo parcerias dentro da nossa possibilidade.
Portal MS: Como você vê a arte dentro do Estado?
Como eu já mexo com a arte há muitos anos, eu vejo que ela melhorou muito. Quando eu comecei, com 17 anos, no teatro, a gente não conseguia apoio pára nada. Tudo que o sei de teatro eu tive que correr atrás sozinho. Os projetos nós realizávamos sozinhos. Conseguimos criar a Federação Sul Matogrossense de Teatro. Em termos de teatro fizemos tudo, mas na época não conseguíamos nenhuma passagem para deslocar o grupo. Os recursos que conseguimos na década de 70, foi no âmbito federal, porque não existia uma sensibilidade para esta área.
Então, acho que houve um crescimento muito grande. Hoje dentro do Estado, se tem um setor específico para isto. Em vários municípios nós já temos fundações. Em um estado fundamentalmente agrícola, que tinha a fama de não se interessar pela cultura, nós tivemos um progresso. Precisamos melhorar, mas não resta dúvida que já crescemos e a tendência é crescer a cada ano.
A sociedade também tem se interessado cada vez mais. Estão se desenvolvendo caminhos além dos perímetros governamentais. Então eu penso que a grande possibilidade do crescimento da cultura é essa junção da sociedade com o governo.
Portal MS: Você acha que é possível uma pessoa sobreviver de arte no Mato Grosso do Sul, você que já foi produtor de teatro e escreve livros?
Tem muitas pessoas que já sobrevivem de teatro, sobrevivem de poesia e assim tem vários grupos que sobrevivem. Não é tão fácil, porque nosso mercado ainda é pequeno, mas é um mercado que ainda vai expandir. Alguns estão pagando pelo preço deste pioneirismo, mas a gente sabe que tem que cada vez mais que investir, apoiar, estimular.
Portal MS: Eu fiz uma entrevista com a Lúcia Monte Serrat, que disse que é difícil sobreviver de arte, porque depende muito do artista, do seu tino administrativo. A Fundação tem algum tipo de ajuda em relação a isto, para o artista saber administrar seu dinheiro e produzir sua exposição?
Nós temos trabalhado em parceria com o Sebrae, isto em relação ao artesanato. Por exemplo, como o artesão aprimorar o seu trabalho, como fazer uma gestão da sua produção, como ele pode colocar seu produto no mercado, toda a questão da produção. E temos procurado colocar em pauta a economia na cultura e já trouxemos pessoas capacitadas para falar isto.
Portal MS: No Marco está tendo um bazar permanente que expõe trabalhos de diversos artistas, como você um projeto permanente deste?
O Marco é uma unidade da Fundação. Tudo o que é o que se realiza lá é feito por um planejamento e aprovação da Fundação de Cultura. Aqui em Campo Grande estamos em ampla expansão. Todo dia praticamente nós temos atividades aqui. Estamos ampliando nossos espaços aqui na Fundação. O Memorial está se transformando em um espaço exclusivo de cultura. Aqui temos toda a última sexta feira do mês o espaço da poesia que acontece no terraço.
Para a realização de trabalhos assim, entra aquelas pessoas de boa vontade, que querem ajudar e que tem consciência.
Portal MS: Em Jardim tem o projeto de osso e madeira, que ajuda famílias carentes a terem uma renda, tem algum outro projeto desse nível aqui?
Tem várias iniciativas. A gente tem, por exemplo, aqui em Mundo Novo e Coxim o trabalho de artesanato com o couro do peixe, que fazem coisas belíssimas. Estão até sendo exportados e premiados. Os municípios que não tem alguma iniciativa já estão preocupados em achar qual é a fisionomia cultural, o que pode representar a cidade.
Este ano nós vamos participar de quatro feiras artesanais. Vamos levar os trabalhos dos nossos artistas para expor, os de maiores expressão, que já atingiram um patamar de qualidade, de aprimoramento e de peculiaridade. E acima de tudo, aquele de que alguma forma anexou neste produto a cara da cultura Sul Matogrossense.
Portal MS: Todo ano é realizado o Festival de Inverno de Bonito, que mostra vários artistas, como um evento deste mexe com a economia?
Este ano a gente já realizou o Festival da América do Sul, em Corumbá, prova disto é que você não consegue nenhum hotel, dado concreto de um movimento que incide sobre a cidade. Obviamente cultura e economia andam de mãos dadas, agora é que vem se percebendo isto. Nós ainda vamos mais longe, cultura e turismo andam de mãos dadas. Por isto nós já estamos fazendo este trabalho aqui em MS.
Nós fizemos um Salão de Turismo o ano passado aqui. Este ano, nós já selecionamos alguns artistas para nos representar no Salão Nacional de Turismo, que vai ocorrer em São Paulo. E estamos na fase final do projeto Cultura e Turismo na região de Miranda, que é um projeto que envolve as pousadas tocando músicas regionais para os turistas. É uma forma de colocar o nosso produto cultural dentro do espaço do turismo no estado.
Eventos como o Festival de Bonito é um movimento econômico, cultural, turístico, um movimento de vida para a cidade. Mas a preocupação nossa é que em cada um destes festivais se mantenha a essência destas propostas. A integração cultural, o cuidado da natureza.
Portal MS: Para os novos artistas que estão surgindo, quais as dicas que você daria para eles ingressarem no mercado de trabalho fazendo arte?
Eu acho que quando você trabalha em qualquer área, primeiro você tem que gostar. A pessoa só faz bem aquilo que ama. Segundo, procure cada vez mais se capacitar dentro daquilo que faz, porque o mercado é pequeno e a disputa é grande, então para você se sobressair e se firmar, tem que ter o diferencial e qualidade naquilo que apresenta. E o que é bom acaba sendo visto, reconhecido.
O artista tem que estar a par dos eventos que ele pode expor seus trabalhos aqui e no Brasil. Tem que estar capacitado, estudando, e quem possui inventividade acaba tendo mil chances, as portas e os portais estão abertos hoje.
Portal MS: Você tem algum projeto pessoal que ainda desenvolve?
Bom, eu continuo escrevendo. Estou com mais dois livros sem previsão para lançar. A escrita é o doce elixir da minha vida. Até escrevi uma frase em um papel “quando estou carente de diálogos converso com um livro”. O livro é a maior oportunidade de conversar e aprender. Eu acho que criar é infinito, mas isto você só consegue com a leitura.
Além deste, eu tenho o projeto “Cesta Básica da Cultura”, criado em 2001. É um projeto que distribui todo ano 40 cestas básicas da cultura, com cerca de 40 autores regionais. As cestas vão para escolas estaduais, particulares, ONGs, presídios e muitos outros lugares. O objetivo é incentivar a criação de bibliotecas e reforçá las. Foi também uma manifestação minha, na época, contra aquelas campanhas de vamos distribuir cesta básica, recolher alimento... O alimento é necessário, se a pessoa está com fome tem que ajudar. Mas o alimento maior é o do conhecimento e é isto que faz com que o ser humano possa sair da condição de miserável e entrar na condição de ser humano digno, capaz de andar com suas próprias pernas e de ser dono do seu destino.
Entrevistado por Letícia Reynaldes Dias